Durante muito tempo, o senador Otto Alencar defendeu publicamente, “com unhas e dentes”, a reeleição do colega de bancada Angelo Coronel. Chegou, inclusive, a afirmar em entrevistas que, caso Coronel fosse rifado da chapa, ele próprio seria candidato ao Governo da Bahia para bancar a permanência do aliado no Senado.
O discurso, no entanto, mudou radicalmente após uma conversa reservada com o governador Jerônimo Rodrigues, na Governadoria. Segundo apuração, naquele encontro teria ficado acertado que o deputado federal Otto Alencar Filho seria indicado para uma vaga no Tribunal de Contas — movimento que resolveu um problema interno e familiar do senador. A partir daí, a narrativa de Otto passou a ser outra. De água para o vinho.
Nas últimas semanas, o senador protagonizou uma sequência de declarações que expõem, segundo críticos, sua conhecida prática de “dois pesos e duas medidas”. Em uma primeira entrevista, de forma considerada deselegante, Otto deu uma espécie de enquadrada pública em Angelo Coronel. A reação foi imediata: prefeitos, lideranças municipais e aliados do chamado “senador municipalista” reagiram duramente em todo o estado.
Diante da repercussão negativa, Otto recuou. Procurou outro veículo de comunicação e tentou se desmentir, negando declarações dadas anteriormente — mesmo com os áudios gravados e amplamente divulgados.
A polêmica não parou por aí. Em entrevista ao Estadão, Otto teria se referido à chamada “chapa puro-sangue” como “carniça”, ao comentar alianças formadas exclusivamente por nomes do PT. A assessoria negou o termo, mas o estrago político já estava feito.
O episódio reacende uma contradição histórica. Em 2002, o próprio Otto viveu dilema semelhante, quando havia a possibilidade de ser deslocado para a vice, enquanto João Leão permaneceria na chapa, numa articulação que envolvia PT, PP e PSD, justamente para evitar rompimentos. À época, a solução foi construída para acomodar interesses e preservar alianças.
Agora, quando a discussão envolve Angelo Coronel, a lógica parece mudar. Para Otto, a vice seria um “demérito” para si. Para Coronel, segundo essa nova leitura, seria uma “honra”. Mais recentemente, o senador chegou a sugerir que o PSD estaria à disposição para que Coronel disputasse o Senado de forma avulsa, enfrentando Jaques Wagner e o ministro da Casa Civil Rui Costa, ambos com o apoio direto do presidente Lula e das máquinas estadual e federal.
Ou seja, de um lado, Wagner e Rui com toda a estrutura do poder; do outro, Coronel contando apenas com o próprio voto e sua trajetória política.
É esse o Otto Alencar que começa a se desenhar para 2026. Um aliado que, para muitos, deixou de agir como amigo e passou a operar com pragmatismo extremo. E, diante disso, fica a pergunta que ecoa nos bastidores da política baiana: com um amigo desses, quem precisa de inimigo?
